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Education Policy Analysis Archives

Volume 7 Number 32

Octubre 23, 1999

ISSN 1068-2341


A peer-reviewed scholarly electronic journal
Editor: Gene V Glass, College of Education
Arizona State University

Associate Editor for Spanish Language
Roberto Rodríguez Gómez
Universidad Nacional Autónoma de México

Copyright 1999, the EDUCATION POLICY ANALYSIS ARCHIVES.
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O Perfil da Universidade para o próximo milênio

Vidal Sunción Infante
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brasil)

Abstract
In this article, I analyze the role of the university in meeting the demands for new knowledge (scientific, artistic and technological) presented by an era of globaliztion of knowledge that is destroying old paradigms and creating new models of management and behavior. These demands include the need to train new professionals, who are highly skilled both in knowing "how to produce" as well as "why to produce." My recent research indicates that the university is not embarked on the path that leads to training professionals who know "how to produce." Nevertheless, I believe that it is possible to restructure the university to meet these goals. Activities and strategies are being devised to increase the university's ability to generate the basic knowledge that will increase the employability of the new professional with a university diploma.

Resumo
Neste artigo se analisa o papel da Universidade como Alma Mater da geração do conhecimento artístico, científico e tecnológico em confronto com as exigências da atual era da evolução da informação, onde o fenômeno da globalização do conhecimento está propiciando a aceleração da quebra de paradigmas de forma multidimensional e permitindo a concepção e nascimento de novos modelos de gestão, de comportamento, de demanda, entre outros. Atualmente se exige da Universidade competitividade no nível de formação do novo profissional, que deve ser altamente competitivo tanto na dimensão do COMO FAZER quanto do POR QUÊ FAZER. Resultados de pesquisas recentes conduzidas pelo autor, apontam que a Universidade está aquém na dimensão do "Como Fazer", constituindo-se num dos pontos frágeis da atual estrutura universitária. No entanto, cremos que é possível reposicionar a imagem da Universidade, num quadro de expectativa proativa, onde a efetiva inter-relação Universidade-Sociedade possa permitir o aumento de sinergia gerando novas vantagens competitivas, capazes de otimizar a combinação dos meios de produção. À luz destas reflexões, são discutidas ações e estratégias para aumentar a competitividade das organizações tendo a Universidade como a "pedra fundamental" no suporte de geração de conhecimento básico e aplicado que possibilite o aumento da employability do novo profissional com diploma universitário.

Introdução

          Segundo James Appleberry (Appleberry:21-02-98) em "1750 se duplicó por primera vez el conocimiento de la humanidad desde los tiempos de Cristo. Recién en 1900 se repitió el fenómeno. La siguiente duplicación se verificó en 1950. Hoy el conocimiento humano se duplica cada 5 años. En el año 2020 se estima que cada 73 días, dicho conocimiento aumentará el doble. A princípios de siglo se publicaban alrededor de 10.000 libros por año. Hoy superan los millones los documentos científicos y técnicos publicados por año". Isso mostra a hiperaceleração na geração de conhecimento, que, naturalmente, obriga as pessoas a atualizar seus conhecimentos para manter o nível de employability exigido no seu respectivo trabalho, profissão, ofício e até para o convívio social do cotidiano. Para quem está entrando no mercado a employability passa a ser uma exigência de praxe, haja vista que as organizações para sustentar seu posicionamento no mercado precisam de gente capacitada para idear e implementar estratégias, em curto prazo, que possibilitem saltos competitivos ainda que pequenos mas freqüentes e que permita manter sob controle a concorrência. É neste contexto de acirrada competição que se está deparando o novo graduado egresso da Universidade. A preocupação do autor deste artigo em abordar o tema "globalização e performance no ensino do terceiro grau sob a ótica estratégica da employability" prende-se ao fato de que em nível global o mercado exige profissionais altamente capacitados para dar soluções aos problemas emergentes. E aí o COMO FAZER é que faz a diferença e, consequentemente, coloca em xeque a capacidade operacional do profissional. Este, aliado ao seu não menos importante nível de conhecimento do POR QUE FAZER, pode-se colocar em situação de top line acarretando o seu posicionamento no restrito mercado de executivos globais. Daí que o tema se constitui num assunto atual que prende a atenção dos mais variados segmentos organizacionais e acadêmicos, pela sua complexidade e relevância, frente aos desafios da nova ordem socioeconômica globalizada.
          Eis que, perante este cenário que não tem pátria nem dono, a interação da "Universidade com o mercado de trabalho" vem sendo vista como uma das ações competitivas para aumentar a employability dos graduados; e, de outro lado, constitui-se numa forma efetiva para aumentar e socializar os conhecimentos gerados pela Universidade, propiciando junto ao mercado a geração de inovações que possibilitem a promoção do crescimento econômico sustentado e, consequentemente, se provoque o reposicionamento da imagem corporativa da Universidade. Não resta dúvida que, como resultado dessa aliança, a vantagem competitiva será tanto para a Universidade como para as organizações que compõem o mercado de: bens, serviços e trabalho.
          Nesse contexto de alianças estratégicas, ambos os atores se beneficiam: para a Universidade, a parceria lhe abre uma janela para aplicar e divulgar suas pesquisas, suas novas tecnologias, projetos científicos em andamento perante a sociedade, e, sobretudo, para a compreensão das necessidades, anseios e aspirações do mercado a respeito dos serviços gerados. De outro lado, as organizações, principalmente as do setor privado, percebem que a Universidade é uma das fontes de pesquisa básica e aplicada que podem ser aproveitadas no processo produtivo, através de mútua cooperação. Os novos tempos em que vivemos, onde a quebra de paradigmas é cada dia mais acelerada, pressupõem uma Universidade mais competitiva, mais flexível, mais atualizada e com uma aguda capacidade proativa para gerar ciência, tecnologia e capacidade para acompanhar as drásticas e dramáticas mudanças no ambiente multidimensional dos negócios. Eis aí o desafio da Universidade como Alma Mater da ciência, tecnologia e das artes no terceiro milênio. Neste contexto, apropriadamente salienta Alencar, (1996) apud Amorim (1997), "De forma incomparavelmente mais intensa do que em qualquer outra época da História, vivemos hoje um momento de aceleradas transformações tecnológicas decorrentes de uma acumulação de conhecimentos sem precedentes-cujos limites são impossíveis de se visualizar. Por sua vez, esse processo está conduzindo a rápidas, contínuas e profundas mudanças econômicas, políticas e sociais. Tudo isso reflete como sucessivos choques no gerenciamento das organizações, em especial nas empresas que lidam em um ambiente competitivo. Novas estruturas, novos procedimentos administrativos, novas formas de liderança já estão se fazendo necessários e o serão muito mais no futuro imediato."
          Atualmente, a Universidade, principalmente a pública, dá a impressão global de estar encastelada dentro das paredes físicas como conseqüência da cultura que construiu ao longo de sua existência, tornando-se complicada a rápida mudança dessa cultura para adaptar-se aos novos tempos, aos novos modelos de gestão; porém se assim não o fizer, estará fadada a perder seu papel que a história lhe reservou logo nos primórdios de nossa era. Naturalmente que, se isso acontecer, novas estruturas organizacionais poderão ser geradas e tomar seu lugar, pois a geração de ciência e tecnologia em nível do state-of-the-art é um caminho sem volta nesta era de hipercompetição. Por outro lado, evidencia-se que a Universidade em si parece não estar em crise, mas sim o modelo de gestão, sobretudo da Universidade pública, já que, em se tratando de uma organização complexa, é ela gerida sob a égide de mais de um modelo, muitas vezes antagônicos. Na Universidade privada os modelos de gestão utilizados são mais harmônicos, haja vista que esta é gerida mais próximo ao modelo de empresa cuja finalidade implícita é o lucro. Porém, tanto a Universidade gerida pelo Estado como a gerida pelo setor privado, ambas estão sendo questionadas na capacidade empregável dos egressos do terceiro grau segundo a opinião do mercado de trabalho (Infante, 1998). Nessa mesma linha de pensamento coloca-se Tragtenberg apud Solino (1996), "a Universidade não pode continuar sendo fábrica de desempregados diplomados e de quadros de opressão e de exploração do trabalhador". Portanto, evidencia-se que há uma preocupação crescente pela interação efetiva da Universidade com a sociedade, visando acompanhar as mudanças sociais que permeia a sociedade mundial.

          A pretensão do autor é contribuir com a performance da Universidade brasileira a partir da ótica da empregabilidade. Para tanto, vimos pesquisando diversos segmentos sociais que demandam dos seus serviços tais como se pode apreciar na Figure 1.

Figure 1. Setores do Nordeste brasileiro a serem
estudados sob a égide da empregabilidade
(Fonte: Projeto Integrado de Pesquisa: O perfil do profissional com formação superior exigido pelo mercado de trabalho atual: a real situação competitiva do egresso do sistema educacional nos estados do RN e CE.)


          A gênese desta reflexão remonta a 1996, quando o autor passou a preocupar-se com a freqüente dificuldade dos alunos da cadeira de "Estratégia Empresarial", tanto em nível de graduação como de pós- graduação, para realizar o trabalho prático (consultoria) de fim de disciplina. Após ponderar as dificuldades e "desculpas" emitidas pelos alunos, decidimos nos aprofundar na busca da compreensão do fenômeno, indagando aos empresários, ainda que informalmente, a respeito. E assim mais tarde decidimos iniciar nossa pesquisa visando compreender o fenômeno da empregabilidade como um dos caminhos capazes de aumentar a inter-relação da Universidade com o mercado de trabalho. Até o presente momento já realizamos duas pesquisas, uma a nível local e outra de abrangência nacional e a terceira em andamento (fig.1 e 3). O estudo da globalização do conhecimento via employability é um árduo trabalho científico, pois há necessidade da compreensão multifacetada do mercado do trabalho e, na medida do possível, próximo ao tempo real, encontrando-se aí alguma dificuldade com a cultura dominante, recursos limitados, entre outros fatores. Porém, temos a certeza de que não nos faltará iniciativa e criatividade para desvendar os canais que permitam alcançar os objetivos, fruto da reflexão iniciada em 1996.

Globalização do Conhecimento

          Entender a dinâmica da globalização, bem como suas conseqüências nos sistemas político, social e econômico, tornou-se um campo fértil nos últimos anos, para que autores das diversas áreas do saber se debruçassem tratando de prever sua repercussão, seja sobre um determinado setor econômico ou sobre o sistema organizacional como um todo, na construção da nova ordem da global village. Tudo isto pressupõe um alto desempenho de cada indivíduo, haja vista que os produtos e serviços se obsoletizam da noite para o dia, a renovação do conhecimento científico e artístico, que segue, ritmo acelerado próprio da inovação da tecnologica, é muito dinâmica, e mais: o cliente desta nova aldeia global é implacável nas suas exigências, na angústia por satisfazer às necessidades que vão aflorando à medida que seu tempo e poder de aquisição aumentam, reforçada pela indispensável colaboração das novas tecnologias de comunicação que facilitam o despertar das necessidades que estavam adormecidas nas profundezas do inconsciente.
          Esta nova era em que vivemos é tão impactante, que, na prática impõe a urgente necessidade de reposicionar os conceitos tradicionais das organizações. Como um dos mais recentes exemplos, destaca-se a "virtualização empresarial", advinda como conseqüência da redução drástica de empregos estáveis, o que embora, paradoxalmente, tenha contribuído para o aumento exponencial de oferta de trabalho. Isto é, quem tem mais poder de empregabilidade terá seu emprego assegurado, só que sem patrão, sem cartão de entrada e saída, sem horário de trabalho, entre outras benesses desta nova era pós-industrial, onde a informação de ponta se constitui na principal ferramenta para aumentar a empregabilidade.
          A curva da evolução da informação (Figure 2) nos permite supor que num mundo competitivo as três últimas ondas (Informação, Produtividade e Imaginação) são as que predominarão no cenário das organizações competitivas no início do terceiro milênio. Eis o desafio para a Universidade se posicionar na vanguarda da demanda por novos conhecimentos, novas tecnologias, novas estruturas gerenciais, entre outras exigências de contribuição da sociedade, para atingir o desenvolvimento sustentado que lhe permita o convívio competitivo no cenário mundial, pois é possível prever que novas ondas de incremento do conhecimento virão a curto prazo, como exigência imposta da hiperpressão científica e tecnológica.

Figure 2. Ondas da evolução do conhecimento humano


          É neste contexto que a Universidade, como "Alma Mater" do desenvolvimento do conhecimento, da ciência, da tecnologia e das artes, começa a ser questionada, no que diz respeito ao nível de atualização dos serviços oferecidos à comunidade. O que fazer perante tamanho desafio? Eis aí o x da questão ! A resposta é complexa, como complexo é o problema que a origina. É possível imaginar que a resposta siga a vertente da multidisciplinaridade do conhecimento, a diversidade de prismas de onde é possível ser visto e analisado o problema em foco.

A Universidade Frente Às Exigências da Nova Estrutura Socioeconômica

          Estamos atravessando uma época onde a "cross-cultural management" passa a ser parte da cultura das organizações globais, isto é, não mais a organização lida apenas com a cultura local onde está fisicamente sediada a organização, mas deve compreender, assimilar e conviver com a cultura global, haja vista que seus produtos e serviços poderão ter clientes alhures das fronteiras físicas do país de origem. E a partir do ponto de vista mercadológico esse cliente deve ser atendido em suas necessidades, anseios e aspirações, levando-se em conta as peculiaridades culturais. Cremos que a Universidade não escapa a esta realidade. E sobretudo por ser a geradora de conhecimento utilizado por todas as organizações, sem excepção alguma, é que deve estar no top line gerando conhecimento no state-of-the-art; reposicionar-se perante às novas tendências de comportamento socioeconômico, dando respostas diferenciais e competitivas as exigências do mercado.
          De acordo com Solino (1996) "A instituição universitária, em qualquer realidade social, sempre tem respondido pela excelência do saber científico e do nível filosófico e cultural, e por isso mesmo geralmente tem recebido por parte da sociedade o reconhecimento a que faz jus, mas também tem sido severamente criticada quando não consegue acompanhar os avanços científicos e tecnológicos, perdendo assim sua capacidade para traduzir em ações concretas as necessidades emergentes da sociedade, através de suas funções básicas: o ensino, a pesquisa e a extensão."
          Portanto, nesta turbulência no ambiente socioeconômico, a Universidade precisa ouvir e compreender as necessidades e anseios da sociedade, gerar conhecimento básico e aplicado e, ainda, melhor tecnologia apropriada para cada segmento social e/ou nichos de mercado, levando-se em conta o desenvolvimento sustentado tão propalado e exigido pela sociedade mundial (Infante, S. V., 1996, pp. 95-113). Neste contexto, para ser eficaz em tempos de mudança, e visto desde uma ótica de desenvolvimento sustentado, a estratégia tem que ser voltada para o futuro, de acordo com os segmentos do mercado-alvo. Isto pressupõe que, no momento atual, o gestor universitário tem que possuir uma excelente sensibilidade, capaz de detectar os menores movimentos de mudança no mercado, e portanto, elaborar estratégias temporárias que possibilitem a otimização das oportunidades de interação com a sociedade, de modo a aumentar a vantagem competitiva da organização, bem como preparar novas estratégias, que lhe permita sustentar essa vantagem competitiva.
          De outro lado, conhecer o perfil dinâmico e multifacetado dos profissionais que o mercado de trabalho está precisando, no presente momento, tanto em nível local como regional, e ainda no futuro imediato, é um desafio premente para o sistema educacional de qualquer país . Nesse sentido, tem-se que criar as condições para fazer com que aconteça um perfeito engate entre o Mercado de Trabalho e o sistema gerador de mão-de-obra qualificada no nível do terceiro grau, no caso, o sistema educacional (fig.3).

Figure 3. Ajuste entre o Mercado de Trabalho e o
Sistema Educacional de terceiro grau

(Fonte: Projeto Integrado de Pesquisa: O perfil do profissional com formação superior exigido pelo mercado de trabalho atual: a real situação competitiva do egresso do sistema educacional nos estados do RN e CE.)


          Atualmente, estamos atravessando uma época onde nada parece ser muito estável, pois economias inteiras "fazem água" e grandes empresas ameaçam afundar. Cientes desta realidade, no Brasil, alguns pesquisadores da Universidade pública brasileira, desde 1996 começaram a estudar com bastante intensidade as possíveis interações entre Universidade e a sociedade visando a compreender o perfil do profissional que o mercado de trabalho esta demandando. Na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil, onde o autor é docente e pesquisador nível "A" do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico-CNPq, vem-se trabalhando no sentido de aumentar o conhecimento sobre os fatores que poderiam melhorar o "ajuste entre o mercado de trabalho e o sistema educacional de terceiro grau", sendo o estudo da employability um dos caminhos que estamos seguindo.

A Releváncia da Empregabilidade Na Cultura Organizacional e No Contexto da Competitividade da Universidade

          A cultura é, segundo Linton apud Rocha & Christensen (1987, p. 292-293), a herança social total da humanidade. Utiliza-se este termo também para designar as variantes locais da herança social, característica de um grupo de indivíduos. Neste sentido, a cultura é formada pelo conjunto de comportamentos, crenças, valores, atitudes, padrões e normas de conduta adquiridos e compartilhados por um grupo social, que servem como forma comum de resolver os problemas com que o grupo se defronta. A organização não é diferente. É um grupo organizado onde pode predominar uma cultura e/ou existirem subculturas, sendo preciso identificá-las e com elas trabalhar para torná-las agentes de competitividade e agentes de empregabilidade organizacional. Quando isto não é possível, haverá de desenvolver-se ações inteligentes para compreendê-las melhor. Neste contexto, a Universidade é rica em cultura, subcultura, ritos, grupos de referência, nichos de poder, entre outros.
          Uma das principais tarefas de um grupo social, qualquer que seja ele, e qualquer que seja o tipo de organização, é o adestramento e promover a coesão dos indivíduos para preservá-lo e mantê-lo forte. E a Universidade não escapa desta realidade cultural. A presente realidade socioeconômica exige que a organização adote uma estratégia que se consubstancialice na lógica para conseguir movimentar em alguma direção a força de trabalho da organização. Porém, observando-se que deve haver integração sistêmica para que todos os diversos estratos culturais se orientem e/ou se esforcem para o atendimento dos objetivos setoriais, os quais, adicionados, compreendam o alcance dos objetivos globais e estratégicos da organização. Portanto, a Universidade, como organização reitora da geração de conhecimento, não foge desta realidade. Quando a cultura de uma organização é compatível com sua estratégia, é possível que a implementação das estratégias, como fruto da aplicação cuidadosa do Modelo de Desenvolvimento Organizacional, fique consideravelmente facilitada, como se pode apreciar no modelo concebido pelo autor (Infant, S.V. 1996, p. 99).
          Ainda Stoner & Freeman (1995: p.165-166) salientam que é dificultoso implementar com sucesso uma estratégia que contradiga a cultura organizacional. Daí que o modelo proposto por Infante mostra que o principal resultado esperado de sua aplicação é o "Desenvolvimento Sistêmico da Organização e Geração da Nova Postura Estratégica". Para tanto, os administradores que se defrontam com esse tipo de situação devem gerir inteligentemente as imprescindíveis mudanças na cultura para se adaptarem à nova realidade estratégica da estrutura global que, atualmente, o mundo está vivendo. E, neste contexto, a Universidade brasileira já tem algumas ilhas de excelência em termos de gerência da administração universitária, aumentando assim a employability de seus alunos nos diferentes níveis de ensino oferecidos.
          De outro lado, o Desenvolvimento Sustentado apresenta-se como uma metodologia gerencial interativa e pormenorizada que permite localizar e conhecer nos mínimos detalhes os gargalos que estariam limitando e/ou dificultando a performance da organização e, portanto, removendo-os, libertando a organização para interagir melhor com o meio ambiente onde está inserida e, consequentemente, diminuindo a possível miopia em empregabilidade. E assim aumentando a capacidade de ver oportunidades de negócios rentáveis no cenário do mercado global, identificando novos nichos. Portanto, o planejamento sustentado constitui-se num processo gerencial que possibilita à organização reagir com competitividade, rapidez e eficácia aos primeiros sinais de mudança do mercado e visualizar as oportunidades rentáveis. Daí, estabelecer o caminho a ser seguido pela organização, possibilitando deste modo obter um nível otimizado na relação da organização com o seu meio ambiente de negócios. A Universidade, sem sombra de dúvida, enquadra-se no contexto desta nova ótica de se ver e analisar a organização e seu respectivo meio ambiente.


Figure 4. Modelo de Desenvolvimento Sustentado da Orgaização

(Fonte: Infante, V.S. O papel do inventor no desenvolvimento industrial In: Anais do I Seminario Internacional de Tecnologia Apropriada para o Desenvolvimento Sustentado. Campina Grande/PB, setembro, 1996.)

 

O Papel da Empregabilidade Como Agente de Desenvolvimento Sustentável

          Todo indivíduo, quase sem exceção, no presente momento, deve estar preocupado com o futuro pessoal e organizacional, visto que a diminuição dos empregos nas organizações é cada vez maior. Em contrapartida, o aumento da tecnologia de ponta é incrementada substituindo a mão-de-obra. Isto é, estão acontecendo mudanças profundas nas relações de trabalho em nível mundial. Saviani (1997, p. 29) alerta: "precisamos adotar uma postura do não parar mais de aprender e principalmente de forma generalista, pois a tecnologia está nos mostrando que a cada dia poderemos assumir mais funções pela facilidade das informações disponíveis em todos os setores da vida humana". O indivíduo no presente momento tem que ser competente para fazer de seu talento um trabalho rentável. Neste contexto, a Universidade tem papel preponderante na formação agressiva do novo profissional para encarar a nova realidade da hipercompetição global.
          Empregabilidade pode ser entendida como a capacidade de expandir as alternativas de obter trabalho e remuneração sem a preocupação de trabalhar com vínculo empregatício. Eis, aqui, uma das justificativas do nascimento das empresas virtuais, com reduzido número de empregados e intenso uso da tecnologia de ponta. Com a empregabilidade, você é o dono de sua carreira. O sucesso depende de sua capacidade de solucionar os problemas de seus clientes, no momento certo, no lugar certo, com a qualidade de ponta, e ao menor preço; bem como do incremento substancial da criatividade, para auscultar o meio ambiente empresarial e visualizar oportunidades, encontrar soluções inéditas para problemas simples ou complexos que tenham repercussão social. Daí que Marshal Goldberg apud Case(1997, p. XVI) foi feliz ao afirmar, ainda que nos primórdios da gênese deste novo conceito, que empregabilidade "é a capacidade de desenvolver habilidades para a atual e para as futuras carreiras do profissional".
          Portanto, conhecimentos atualizados, múltiplas habilidades e boa reputação constituem-se no grande capital dos indivíduos que vendem o próprio trabalho, já que o futuro promissor parece estar reservado para os profissionais que detêm a informação e sabem utilizá-la para a solução de problemas específicos, na hora certa, em que o cliente precisa. Assim, o novo tipo de profissional empregável precisa saber auto-empresariar o seu talento, já que a tendência é a redução de empregos e aumento do trabalho autônomo. E o mercado de trabalho é feito de problemas para resolver os quais, às vezes, não estão traduzidos sob a forma de vagas, e sim de oportunidades para gente que sabe do assunto, soluciona, recebe sua remuneração e vai embora.

Considerações Finais

          "Cuando creímos que teníamos todas las respuestas, de pronto, cambiaron todas las preguntas," esta frase do poeta uruguaio Mario Benedetti resume com perfeição a intrincada situação em que se encontram atualmente o homem, as instituições e os países frente ao fenômeno da globalização da economia e da informação. Vivemos uma época na qual o progresso tecnológico tem provocado uma hipercompetitividade em quase todos tipos de organizações. As que aspiram sobreviver têm, obrigatoriamente, que elevar sua competitividade de forma sistemática. Neste contexto, o Brasil não poderia ser indiferente a essa realidade mundial na qual a tecnologia da informação se torna um fator dos mais sensíveis na luta pela competitividade, tanto em nível individual como organizacional. É um desafio cotidiano. O surgimento de novas tecnologias, ou novas aplicações, em prol do atendimento das necessidades emergentes do novo ambiente organizacional, paradoxalmente, não pára de oferecer novas oportunidades a nível profissional e empresariail propriamente ditas, propiciadas pelas novas tecnologias ou novas formas de sua aplicação. Para tanto, as organizações exigem profissionais altamente qualificados, que possibilitem o aproveitamento daquelas oportunidades e/ou ajudem a encontrar a possível solução para os problemas próprios da era da informação, no tempo mais curto possível.
          Após a reflexão inicial que deu origem a este artigo, reforça-se nossa crença de que, no contexto econômico em que vivemos atualmente na aldeia global, quatro fatores estão sendo trabalhados nas organizações: qualidade, produtividade, tecnologia e velocidade no atendimento à demanda, pois são estes, no presente cenário global, os fundamentos básicos da determinação das organizações em serem competitivas ou não. A tecnologia demanda profundas mudanças e sua evolução aponta no sentido da otimização do uso dos fatores de produção. A qualidade tem forçado as organizações a buscarem meios para aumentar a produtividade, tendo como principal preocupação a plena satisfação do cliente. A velocidade como agente diferencial para solucionar o problema do cliente no momento certo, no lugar apropriado e ao preço justo. De outro lado, os resultados das pesquisas realizadas nos levam a refletir sobre quão importante é propiciar o mais cedo possível a inserção do Brasil como um todo no novo contexto socioeconômico mundial. Para tanto, é fundamental proporcionar o apoio à inovação tecnológica e à criatividade para permitir ao novo profissional graduar-se na Universidade com a competitividade e atualidade que o mercado do trabalho mundial lhe exige.
          Desse modo, alguns dos resultados obtidos empiricamente mostram, na síntese a seguir: "...que o estudante brasileiro está começando a utilizar, ainda que timidamente, a Internet como uma ferramenta de aprendizagem; e ainda mais relevante tornar-se-ia esta evidência ao se constatar que a maior parte dos alunos que fazem uso desta tecnologia é justamente aquela detentora de Bolsa de Iniciação Científica, isto é, são estudantes engajados em projetos de pesquisa sob a orientação de um professor, o que, por si só, já é um início para o aumento diferencial de sua formação acadêmica. Globalmente, os estudantes do terceiro grau no Brasil acessam a Internet com o intuito de pesquisar assuntos ligados a seus estudos, o que parece ser um bom início para facilitar sua aprendizagem. O autor desta pesquisa, como pesquisador do CNPq de longa data, pode confirmar que, via de regra, nossos bolsistas constróem um diferencial na performance acadêmica e na grande maioria continuam estudos de pós-graduação. Vale salientar que os resultados apontam para a necessidade de aumentar na Universidade as facilidades para que o estudante tenha aceso à Internet. Os resultados também apontam para a presença marcante da mulher no uso da Internet como meio tecnológico facilitador do aumento de sua performance, visando à sua inserção com possibilidades de sucesso no disputado mercado de trabalho" (INOVA/99). Salientamos que estes resultados fazem parte da pesquisa mais abrangente que realizamos em 1998 junto aos alunos de graduação que participaram da 50ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência-SBPC.
          Ao longo deste artigo, fica evidente que satisfazer os anseios de uma sociedade que vive um processo de transformações híper-rápidas e radicalmente profundas, decorrentes do fenômeno multidimensional da globalização, constitui-se numa das tarefas cruciais da Universidade, mantendo seu caráter de Alma Mater na geração do conhecimento científico, tecnológico e artístico, em meio a um processo de convívio com a geração de novos métodos ou modelos de gestão universitária numa visão proativa de "Arte, Arquitetura e Engenharia" organizacional que lhe permita acompanhar e até adiantar-se ao efeito de novas ondas propulsoras de novo conhecimento.

Referências

Amorim,T.N.G.F.(1997). Competitividade organizacional: caminhos alternativos. In: Anais ENANPAD97.

Appleberry, J. (1998) Presidente de la American Association of State Colleges and Universities de los EEUU. (http://ekeko.rcp.net.pe/ 21-02-98).

Case, Thomas A. et alii. Empregabilidade: de executivo a consultor bem-sucedido. São Paulo: Makron Books, 1997

Minarelli, José Augusto. Empregabilidade: como ter trabalho e remuneração sempre. 10 ed. São Paulo: Editora Gente, 1995.

Rocha, Angela da & Christensen, Carl. Marketing: teoria e prática no Brasil. São Paulo: Atlas, 1987 Saviani, José Roberto. Empresabilidade. São Paulo: Makron Books, 1997.

Solino, A. Silva da. Planejamento e gestão na instituição universitária: um enfoque multidimensional. São Paulo: EAESP/FGV,1996. (Tese de Doutorado).

Sunción, Infante Vidal et al. O papel do Inventor no desenvolvimento industrial. In: Seminário Internacional de Tecnologias Apropriadas para o Desenvolvimento Sustentado. Brasília: ABIPTI/FINEP, 1997.

Sunción, Infante Vidal et al. Os graduados pela Universidade brasileira estão preparados para atender às exigências do mercado global?. XXXII Asamblea Anual, CLADEA 1997, Monterrey, México, p. 603.

Sunción, Infante Vidal et al.O perfil do profissional com formação superior exigido pelo mercado de trabalho atual: a real situação competitiva do egresso do sistema educacional nos Estados do RN e CE. Projeto Integrado de Pesquisa / CNPq, 1999.

Sunción, Infante Vidal et al. O uso da internet como recurso tecnológico no aumento da performance do estudante universitário no Brasil. Seminário Internacional sobre Gestão da Inovação Tecnológica no Nordeste -INOVA/99. Fortaleza, junho de 1999.

Tragtenberg, Maurício. O conhecimento expropriado e reapropriado pela classe operária. In.: Prado Júnior, Bento et al. Descaminhos da educação pós-68. São Paulo: Brasiliense, 1980

Stoner, J. A. F. & Freeman, R. E. Administração. Rio de Janeiro: Prentice do Brasil, 1995.

Acerca del Autor

Vidal Sunción Infante

Programa de Pós-Graduação em Administração
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brazil)
Fone/Fax: 005584-2153536

Email: planesp@digi.com.br

Vidal Sunción Infante, es Dr. en Administración por la Universidade de São Paulo - USP / Brasil. Desde 1985 es docente de la Universidade Federal do Rio Grande do Norte / Brasil. Desde 1985 forma parte del cuerpo de Investidores Cientificos del Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq / Brasil. Es autor del modelo teórico "Desenvolvimento Sustentado da Organização". Es coordenador del Núcleo de Competitividade Industrial -COMPESQ. Actualmente conta con mas de 50 trabajos publicados. Actualmente está trabajando intesnsivamente en la investigación sobre empleabilidad.

About the Author

Vidal Sunción Infante

Vidal Sunción Infante, PhD in Administration (Universidade de São Paulo-USP / Brazil). Since 1995 Dr. Sunción has served as a professor at the Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Brazil). Since 1985, he has served as a researcher in the Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq in Brasil. He is the author of the theoretical model "Sustainable Development of the Organization." He is coordinator for the Team for Industrial Competitiveness. He is author of more than 50 published scholarly works. Currently, his research focuses on problems of "employability."


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