CFP: A Educação sob as “Novas Direitas” do Século XXI

2026-01-15
Chamada de Trabalhos da EPAA/AAPE

 

A Educação sob as “Novas Direitas” do Século XXI: Políticas, Discursos e Lutas pela Justiça Social

Editoras convidadas:

Manuela Mendoza (Universidad de O’Higgins)

Analía Inés Meo (CONICET - Universidad de Buenos Aires)

Aina Tarabini (Universidad Autónoma de Barcelona)

Marie Verhoeven (Universidad de Lovaina)

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Este número especial aborda uma questão urgente e de relevância global: como a ascensão das “novas direitas” está remodelando o campo educacional e disputando sua relação com a justiça social. Nas últimas décadas, temos testemunhado a consolidação de um novo repertório político e discursivo que, longe de ser um simples retorno ao conservadorismo tradicional, combina racionalidades neoliberais, neoconservadorismos identitários, populismos autoritários, projetos tecnocráticos e novas formas retóricas e expressivas que desafiam os limites do que é publicamente “dizível” (Apple, 2001; Gandin & Lima, 2016; Gomes de Lima & Hypolito, 2019; Rojas, 2024; Sanahuja & López Burian, 2023). O que há de “novo” nesses movimentos de direita é sua capacidade de articular e reconfigurar esses registros heterogêneos —econômicos, morais e culturais— dentro de um mesmo horizonte político: o da restauração da ordem e da redefinição do sentido público da educação. Além disso, conseguem articular a crítica ao Estado, o descontentamento social de diferentes grupos, as promessas de liberdade e a necessidade de ordem, reconfiguradas nos cenários pós-pandemia (Semán, 2023).

Diferentemente das direitas clássicas do século XX, as novas direitas contemporâneas implementam estratégias de “modernização conservadora” (Apple, 2012, 2013, 2018), que combinam a defesa do mercado com a ênfase na identidade nacional, na família e na religião como ideais morais. Não se trata apenas de privatizar ou desregular, mas de moralizar e homogeneizar os sistemas educacionais sob a expectativa de restaurar uma comunidade cultural e de valores percebida como ameaçada. Como mostram estudos recentes (ver, por exemplo, Giudici et al., 2025), essa convergência entre princípios neoliberais no domínio econômico e tradicionais no domínio moral está impulsionando políticas e discursos educacionais que operam em múltiplos níveis —desde o currículo e a formação docente até a governança educacional e a regulação moral das escolas. Assim, observamos como a combinação dessas racionalidades (neoliberal e tradicional) promove, por exemplo, a liberdade de escolha e a meritocracia —frequentemente recorrendo a discursos de inclusão e de direito à educação— ao mesmo tempo em que avança uma suposta neutralidade ideológica e campanhas contra a “ideologia de gênero” e a educação sexual integral (e especialmente contra o feminismo), legitimando formas de controle cultural (Ball, 2017; Biesta, 2011; Brown, 2019; Littler, 2018; Reay, 2017; Rosenkranz & Lavizzari, 2025; Tomazini, 2025; Venegas, 2025). Tudo isso ameaça, de maneira evidente ou velada, o papel que o sistema educacional pode desempenhar no fortalecimento da democracia e da justiça social.

Nesse contexto, o número especial convida à análise das genealogias, efeitos e resistências associadas a essas novas configurações na interseção entre políticas educacionais, práticas escolares e projetos de justiça social. São bem-vindas contribuições de autoras e autores com diferentes contextos e trajetórias, incluindo estudos teóricos, históricos e empíricos que analisem como as novas direitas mobilizam discursos e políticas para disputar a educação como campo de produção moral e política. Revisões de literatura não se enquadram no escopo deste número especial. O número também incentiva o diálogo entre perspectivas críticas que explorem formas de resistência, contra-narrativas e práticas pedagógicas voltadas a (re)imaginar a educação como espaço de democracia e justiça social. Trata-se de uma chamada aberta a contribuições de qualquer região, com forte orientação comparativa. Nesse marco, o número é particularmente relevante para a seção latino-americana da revista, já que a América Latina constitui um contexto-chave para analisar o surgimento das novas direitas na educação, bem como as disputas em torno da justiça social e do direito à educação em tempos de aprofundamento das desigualdades educacionais e sociais.

Na avaliação das submissões, será dada prioridade a contribuições que definam claramente seu problema de pesquisa, estejam explicitamente ancoradas em referenciais teóricos críticos (por exemplo, sociologia crítica da educação, sociologia das políticas educacionais, estudos sobre as novas direitas, análise do discurso, abordagens feministas, interseccionais ou decoloniais) e apresentem uma articulação consistente entre teoria, contexto e evidência empírica ou histórica, quando pertinente. Será especialmente valorizada a capacidade analítica de situar os discursos e políticas das novas direitas em contextos educacionais específicos, bem como a reflexão sobre suas implicações para a democracia, a justiça social e o direito à educação —incluindo, quando relevante, a análise de formas de resistência, contra-narrativas e práticas pedagógicas alternativas.

Informações para Submissão

As pessoas interessadas são convidadas a submeter um resumo estruturado anônimo de 1.000 palavras, contendo os seguintes componentes: introdução, objetivo, métodos, resultados preliminares e implicações.

Os resumos devem ser enviados eletronicamente por meio do site da EPAA/AAPE, na seção Education under the “New Right” of the 21st Century, seguindo as diretrizes de submissão da revista.

Serão aceitos resumos em espanhol, português ou inglês, e todos os artigos serão avaliados por meio de um processo de revisão duplo-cego. Mais informações sobre as diretrizes da EPAA/AAPE podem ser encontradas em: https://epaa.asu.edu/index.php/epaa/about/submissions.

Cronograma

Prazo para envio dos resumos: 6 de março de 2026

Decisões editoriais sobre os resumos e convite para envio dos manuscritos completos: 3 de abril de 2026

Recebimento dos manuscritos completos: 30 de julho de 2026

Recebimento das versões revisadas: 15 de fevereiro de 2027

Decisões finais: 15 de abril de 2027

Publicação prevista: maio de 2027

 

Em caso de dúvidas sobre esta chamada, entre em contato com Manuela Mendoza (manuela.mendoza@uoh.cl), Analía Inés Meo (analiameo@conicet.gov.ar) e Aina Tarabini (aina.tarabini@uab.cat).

References

Apple, M. W. (2012). Can education change society? Routledge.

Apple, M. W. (2013). Educating the right way: Markets, standards, God, and inequality. Routledge.

Apple, M. W. (2018). Struggle for democracy in education: Lessons from social realities. Routledge.

Ball, S. J. (2017). The education debate (3rd ed.). Policy Press.

Biesta, G. (2011). Good education in an age of measurement. Paradigm.

Brown, W. (2019). In the ruins of neoliberalism: The rise of antidemocratic politics in the West. Columbia University Press.

Gandin, L. A., & Lima, I. G. de. (2016). A perspectiva de Michael Apple para os estudos das políticas educacionais. Educação e Pesquisa, 42, 651-664. https://doi.org/10.1590/S1517-9702201609143447

Giudici, A. Gruber, O., Schnell, P. & Pultar, A. (2025) Far-right parties and the politics of education in Europe. Journal of Contemporary European Studies, 33(1), 1-14. https://doi.org/10.1080/14782804.2024.2352518

Gomes de Lima, I. G. D., & Hypolito, Á. M. (2019). A expansão do neoconservadorismo na educação brasileira. Educação e Pesquisa, 45, e190901. https://doi.org/10.1590/s1678-463420194519091

Littler, J. (2018). Against meritocracy: Culture, power and myths of mobility. Routledge.

Reay, D. (2017). Miseducation: Inequality, education and the working classes. Policy Press.

Rojas, M. T. (2024). Neoconservadurismos en la educación chilena: emergencia de los actores antigénero en el debate público. Educação & Sociedade, 45, e274884. https://doi.org/10.1590/ES.274884

Rosenkranz, G. B., & Lavizzari, A. (2025). Education as a field of contention: Feminist and anti-gender struggles over democracy. Social Politics: International Studies in Gender, State & Society. https://doi.org/10.1093/sp/jxaf058

Sanahuja, J. A., & Stefanoni, P. (Eds.) (2023). Extremas derechas y democracia: Perspectivas iberoamericanas. Fundación Carolina.

Semán, P. (Ed.) (2023). Está entre nosotros ¿De dónde sale y hasta dónde puede llegar la extrema derecha que no vimos venir? Siglo XXI Editores.

Tomazini, C. (2025). Attacking gender education in Latin America: an ambiguous consensus? Globalizations, 22(6), 1009–1026. https://doi.org/10.1080/14747731.2025.2479332

Venegas, M. (2025). Movilizaciones antigénero, "ideología de género" y asalto a la democracia: La batalla por la educación para la igualdad sexual y de género en la Europa del Sur. Revista de Sociología de la Educación-RASE, 18(1), 47–67. https://doi.org/10.7203/RASE.18.1.28624